sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso,
tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real,
certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo,
como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua,
como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho,
como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum,
talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela,
sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei,
eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará,
quem sabe?,
nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza,
sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo,
ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou,
e talvez serei sempre,
o da mansarda,
Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.

Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 0 seu sol,
a sua chuva,
o vento que me acha o cabelo,

E o resto que venha se vier,
ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata,
que é de folha de estanho, D
eito tudo para o chão,
como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol,
pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas,
que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega,
concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana,
impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores,
gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito,
decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for,
que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas,
como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira.
Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.

TABACARIA (15-1-1928 )
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Hoje eu estou me sentindo bem burra. Burra e carente. Vou deixar meus pequenos seres demoniacos (Boolie e Pepa) em casa...a Boolie é muito esperta e odeia minha mala. Quase atacou a pobre.

Comprei água de melissa para dar à minha pretinha básica mas não adiantou nada. Ela continua loka...loka loka.

Acho que minha vida é quadrada. Mas todos pensam que é redonda. Até eu pensava dia desses. Vai ser bom ter mini férias no meio desse caos todo.

Também decidi que esse ano vou fazer uma grande viagem...sei lá. Além da viagem ao centro do EGO...hihi

Tem muita confusão agora varrendo as histórias antigas. Não está um lugar bom de ficar essa Íris.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

O dia hoje está um tanto quanto nebuloso...meio semelhante ao estado da minha alma...
Entendo que não poderia estar de outra forma pois com todas essas descobertas a respeito de mim mesma, estranho seria estar blasé a elas.

Mas estranhamente estou bem. Meus trabalhos estão rendendo bem, estou calma e com o sono em dia (ainda bem pois esta semana vou correr com uns trabalhos).

Mas aquela chata sensaçãod e apatia, de não vontade de fazer coisas ainda está por aqui. De uma forma mais tranquila claro. Sinto como se eu estivesse suspendendo tudo ao meu redor, em termos de ações, projetos ligados a vinculos e laços, na espera de acentar algumas indagações que tenho me proposto nos ultimos tempos.

Meus sonhos andam tão modificados. Aquela praia que constantemente tinha maremotos terríveis está calma, eles são compostos de histórias normais e cotidianas sem as maluquices e irrealidades anteriores. Eles são longos agora. Longos e constantes. Gosto destes. A noite fica divertida.

Quanto a amor eu tenho pensado muito nele. E percebi minha total ignorancia a respeito do sentimento e, ao contraro do que devia não me sinto menor e perdedora por isso.
Entendo que gastei uns bons anos em ilusões e isso faz com que tenha vontade de mudar de idade para tentar reaver esse tempo perdido.

Preciso falar disso tudo...tenho falado com a Boolie mas ela me morde...deve me reprovar...a Pepa por sua vez se esfrega no meu braço e vira de barriga para cima para receber afago...acho q ela não quer que pense nisso.

Mas na real sao coisas que nenhum melhor amigo entende...a não ser aqueles que não estão aqui. Tenho que marcar hora com minha pequena psicologa.

É estranho definir. Tô bem, tô feliz, realizada, trabalhandoe fluindo, revendo a minha origem e a minha realidade verdadeira e não essa que inventei para me adequar àquilo que é estranho. Mas sei que estou constantemente reformulando, reorganizando...é engraçado.

Sábado um novo amigo (err..) estava me mostrando umas musicas e colocou uma sertaneja muito antiga dos interiores mais interiores de sao paulo...foi bom ouvir aquilo e lembrar da chácara e de Rio Preto...aliás...está sendo muito bom dismistificar a Iris.

Preciso ir papar e pagar contas...essa parte de pagar contas é totalmente dispensável...hihi...mas necessária.

E preciso também organizar uma forma de ir para a casa da minha irmã esse final de semana...queria ficar la uns 5 dias...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Hoje amanheceu um dia não dentro de mim. E todo dia não é extremamente poético, denso e vazio.

Tô com fome. Me dei conta de que ando comendo muita porcaria e que meu estômago não é saquinho de lixo para eu colocar tanta meleca nele.

Hoje pela manhã comprei uns remedinhos que a gastro me deu e já comecei a tomar. VOu cuidar mais de mim...de repente me deu uma vontade de ficar muito bem fisicamente...já que o restante anda tão prejudicado.

Tõ meio mole, pressão baixíssima e mais do que nunca esquecida de tudo. Hoje tenho algumas tarefas a resolver que parecem imensar e intermináveis.

Tive insônia. Acordei na madruga e achei o Dudu perdido e com insonia também e a gente ficou conversando até a hora em que a Boolie resolveu se suicidar...mas ela nunca consegue...ainda bem.

Aproveitei bem o início de manhã e cheguei relativamente cedo no trampo...mas queria ir para casa, deitar na cama e ficar olhando o teto até vir o sono.

Tô com fome...mas preciso deixar meu organisminho limpo um pouco...aiai...apatias...uó...acho que quero colo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Hummmm...dias bons os ultimos...comemoramentos aniversarísticos muito bons. Muitas hello kittys novas na coleção.

Retornando essa semana para o Niten, psicoterapia bombando na mente e umas coceguinhas fofas no meu coração.

Sei lá...há uma tranquilidade muito simpática dentro de mim...nada tá muito certo e perfeito...mas a possibilidade de futuros bons me acalma a alma.

Bjoca

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Ontem a noite, antes de dormir eu chorei um pouco...um choro estranho, que não era meu...mas era.

Como é fácil as pessoas se encontrarem. E como é mais fácil ainda se perderem em definitivos momentos que não precisariam sequer ter existido.

A gente muda a direção do olho com facilidade demasiada. Perdemos belas oportunidades de "te amo" que jamais voltarão a existir e se voltam, certamente o brilho será fosco e envelhecido.

Nessa constante busca pelo "inexorável", a gente perde família, amores, desejos, sonhos. Porque sempre estamos tão empenhados em fazer e ter como resultado o melhor que esquecemos das discretas nuances que, desapercebidamente dão o tom da vida que tanto buscamos.

Aí, quando nos damos conta tudo parece ter saido de nosso controle, a vida passa a ser madrasta má e todos os deuses do mundo não explicariam de forma honesta onde foi que erramos.

A execução, o excesso de peso que damo às verdades ao nosso redor. Tudo isso gera realidades muitas vezes densas e diferentes do combinado.

Infelizmente vivemos só, neste conjunto obtuso de contos acumulados ao longo dessa existência.
Vivemos só porque não sabemos esperar, não doamos o que realmente seria necessário e amamos muito mais as histórias que inventamos do que os objetos de amor.

Todo mundo quer viver bem. A gente se apega ao que já esgotou para acreditar que era bom, e se tivessemos novamente seria ótimo. Quando na verdade nem percebemos que este jaz em sua paz, deixando o vazio existente e a lembrança dos bons momentos.

A gente acha muitas vezes que o que passou tinha as notas de felicidades que tanto procuramos e o passado passa a ter um aconchegante ninho de possibilidades. Esquecemos completamente que este já teve seu tempo e que é urgente novos horizontes e vidas futuras.

As nossas vidas, que se perdem nas enlouquecidas elocubrações do "se eu tiver uma chance faço diferente", diretamente ligada àquilo que já não pertence mais ao ciclo atual de vida, que já não agrega valores significativos pois tudo mudou.

A calma, paciência ampliam as idéias. Serenidade faz o certo aparecer de forma clara. Coragem nos dá asas para mudar a vida dentro de nós.

Tudo isso nada mais é do que respeito. Por nós mesmos, pelo outro e pelas histórias que essas possibilidades podem trazer.

domingo, 5 de fevereiro de 2006

São nove da noite de um domingo exaustivo...metade deste adjetivo se dá ao horroroso calor que faz nessa terra e a outra parte se dá pela intensa jornada de trabalho do fim de semana...alias...rendeu muitissimo mais do que eu imaginava. Isso me libera o fim de semana que vem inteiro para eu comemorar a data tão querida que se aproxima.

Adoro aniversários, são datas reflexivas...tudo bem que eu sou dada a um excesso de reflexão mas acho tão legal ficar mais um ano com vida, ter mais uma possibilidade de acertar a marcha dessa locomotiva insandecida que é a vida e também fazer pequenos projetos para a idade nova que se instala gradativamente ao longo dos meses e culmina na grande data de celebração de nascimento.

Sei lá...

Agora do que sei digo ser intenso e criativo...Muita produção gráfica e um simpático adeus às questões complexas da minha mente...acho que estão sendo digeridas aos poquinhos.

Minha irmã me deu um livro com o intuito de me "catequisar" muito bom para ler. Fala da vida de Jesus mas num aspecto tão humano. Na real comecei a entender o lance dos judeus que nunca tinha entendido e o porquê deles serem, historicamente, um povo separado. Achei bem legal...acho que catequizar num vai...mas vai abrir horizontes...e isso é muito bom.

A Claudia acaba de me dar uma notícia engraçada e emocionante.
Primeiro a parte engraçada que vai mais seca: Minha tia leu meus diários de quando era pubere e adolescente. Disse que me entendeu...isso é engraçado.

O emocionante disso é saber que eles ainda existem e nessa fase que estou onde o passado liga-se com o presente veio em ótima hora. Ali tem tudo oque eu construi até sair de casa de verdade. Ali tem a sensação da morte dos meus pais, tem meus pais vivos ainda, tem minhas poesias adolescentes, os primeiros cartões de namoradinhos, musicas...ali tem tudo o que eu preciso lembrar e reviver...ali tem o luto que preciso elaborar...acho q vou até pedir a caixa pra tia mandar antes que ela venha passar as férias aqui...esse é um exato momento de abri-la.

Hoje o dia foi perfeito, o fim de semana foi perfeito pois conclui o que precisava. Acertei as coisas do meu err...home office, botei no papel o que tinha que estar lá, acertei planilhas, fiz layouts, mandei emails, limpei a casa, não fiz comida (tava muito quente...eca), cuidei dos gatos e dormi...hum...lavei roupa também.

Quero muito que isso se reflita no meu interior e em tuuuudo que tenho que organizarla dentro. Vou layoutar...bjo

sábado, 4 de fevereiro de 2006

Minhas monocromáticas gatas estão se "desintendendo" finalmente! Passaram da fase blasé para a fase "vou ficar te irritando".

Quando a Boolie não irrita a Pepa a Pepa vai atras da Boolie só para ser irritada. Meio loucas mas agora há paz no reino da Irislândia...
Canto III

Almas na Lua - Piccarda - Constança

Aquele Sol, que primeiro escaldou meu peito, trouxe-me a bela face da verdade, revelada na luz dos seus argumentos. Admitindo meu erro, levantei minha cabeça para melhor expressar minha confissão, mas, antes que eu pudesse abrir a boca, uma nova visão me surpreendeu. Ela tomou minha atenção e fez que esquecesse a confissão.

Numa superfície lisa, parecida com um vidro transparente ou a superfície de um lago tranqüilo, eu vi rostos refletidos. Pálidos, pareciam ansiosos por falar. Acreditando serem mesmo reflexos, cometi o erro oposto ao de Narciso, e virei-me para vê-los de frente mas não achei ninguém. Então olhei para a luz da minha doce guia. Ela me olhava sorrindo.

— Não te admires por eu estar sorrindo por causa de tua reação infantil — disse ela. — É engraçado que não confias no que vês diante dos teus próprios olhos, e te viras para procurar no nada. São substâncias verdadeiras o que tu vês. Estão nesta condição porque quebraram suas promessas. Fala com elas, e crê no que elas te disserem, pois é Luz verdadeira que as ilumina e não permite que faltem com a verdade.

Perguntei, então, à sombra que parecia ser a que mais desejava falar, e comecei:

— Ó espírito bem criado, que sentes, sob os raios da vida eterna, o doce prazer que, sem tê-lo provado, jamais poderei descrever, grato me farás se me contares o teu nome e a vossa sorte.
Com olhos sorridentes, ela falou:

— No mundo eu fui uma virgem irmã. Se buscares na tua mente, haverás de lembrar-te de mim, embora, agora eu esteja muito mais bela. Eu sou Piccarda. Sou abençoada, aqui na mais lenta das esferas, entre estes outros abençoados. Nossos desejos só se manifestam nos desejos do Espírito Santo, e por isto nos alegramos. Nosso posto neste céu, na mais lenta das esferas, nos foi dado porque fomos um tanto negligentes em nossos votos.

— Vossa aparência magnífica transforma vossos rostos em algo divino, que está além do que eu posso recordar, por isso demorei a reconhecer-te — eu falei. — Mas agora que falastes, já consigo lembrar de teu rosto. Mas dize-me, vós que aqui estás tão felizes, não almejais um lugar mais alto, para ver mais e mais serdes amados?

Ela sorriu. O mesmo fizeram os outros vultos. Depois, com um semblante que irradiava felicidade, respondeu:

— Irmão, nossa vontade é satisfeita pela virtude do amor, que nos faz querer nada somente o que já temos. Se desejássemos subir mais então nossos desejos não estariam de acordo com o desejo Daquele que aqui nos colocou. Não há lugar para isto aqui. Considera a natureza do amor e verás que aqui, só amor é necessário. Nossa posição neste reino, seja mais alta ou mais baixa, agrada a nós, ao reino e também ao Rei. Aqui habitamos na Sua vontade, e a Sua vontade é a nossa paz.

Para mim ficou claro que o Paraíso está em todos os cantos do céu, mas que a graça do Bem Supremo não se espalha por ele de maneira uniforme.

Esclarecida a dúvida, perguntei sobre sua vida e como chegou a quebrar a promessa que fizera.

— A vida perfeita e grande virtude de Santa Clara — disse — inspira aquelas que vestem o hábito e o véu e desejam, até que a morte venha, viver e dormir com Aquele que aceita todos os votos de amor. Do mundo, por segui-la, ainda jovem, eu fugi, e no seu hábito me fechei. Mas os homens, mais inclinados ao mal que ao bem, raptaram-me do meu doce claustro. Só Deus sabe o que minha vida se tornou. E este outro esplendor que se mostra a ti à minha direita, também foi irmã e teve também o véu arrancado de sua cabeça. Forçada de volta ao mundo contra sua vontade, contra seus votos, jamais despiu o véu que cobria seu coração. Esta é a luz da grande Constança, que casou-se com o segundo vento de Suábia, e gerou sua terceira e última rajada de poder.

Depois que ela me disse essas coisas, todas as almas começaram a cantar Ave Maria e assim desapareceram como uma coisa que afunda em águas profundas. Sobre elas eu mantive meu olhar até que desaparecessem completamente. Depois, virei-me para Beatriz, e me ofusquei. Tão forte era a sua luz nos meus olhos, que não pude suportar o brilho, e assim não consegui, naquele momento, perguntar o que eu queria.