sábado, 4 de fevereiro de 2006

Canto III

Almas na Lua - Piccarda - Constança

Aquele Sol, que primeiro escaldou meu peito, trouxe-me a bela face da verdade, revelada na luz dos seus argumentos. Admitindo meu erro, levantei minha cabeça para melhor expressar minha confissão, mas, antes que eu pudesse abrir a boca, uma nova visão me surpreendeu. Ela tomou minha atenção e fez que esquecesse a confissão.

Numa superfície lisa, parecida com um vidro transparente ou a superfície de um lago tranqüilo, eu vi rostos refletidos. Pálidos, pareciam ansiosos por falar. Acreditando serem mesmo reflexos, cometi o erro oposto ao de Narciso, e virei-me para vê-los de frente mas não achei ninguém. Então olhei para a luz da minha doce guia. Ela me olhava sorrindo.

— Não te admires por eu estar sorrindo por causa de tua reação infantil — disse ela. — É engraçado que não confias no que vês diante dos teus próprios olhos, e te viras para procurar no nada. São substâncias verdadeiras o que tu vês. Estão nesta condição porque quebraram suas promessas. Fala com elas, e crê no que elas te disserem, pois é Luz verdadeira que as ilumina e não permite que faltem com a verdade.

Perguntei, então, à sombra que parecia ser a que mais desejava falar, e comecei:

— Ó espírito bem criado, que sentes, sob os raios da vida eterna, o doce prazer que, sem tê-lo provado, jamais poderei descrever, grato me farás se me contares o teu nome e a vossa sorte.
Com olhos sorridentes, ela falou:

— No mundo eu fui uma virgem irmã. Se buscares na tua mente, haverás de lembrar-te de mim, embora, agora eu esteja muito mais bela. Eu sou Piccarda. Sou abençoada, aqui na mais lenta das esferas, entre estes outros abençoados. Nossos desejos só se manifestam nos desejos do Espírito Santo, e por isto nos alegramos. Nosso posto neste céu, na mais lenta das esferas, nos foi dado porque fomos um tanto negligentes em nossos votos.

— Vossa aparência magnífica transforma vossos rostos em algo divino, que está além do que eu posso recordar, por isso demorei a reconhecer-te — eu falei. — Mas agora que falastes, já consigo lembrar de teu rosto. Mas dize-me, vós que aqui estás tão felizes, não almejais um lugar mais alto, para ver mais e mais serdes amados?

Ela sorriu. O mesmo fizeram os outros vultos. Depois, com um semblante que irradiava felicidade, respondeu:

— Irmão, nossa vontade é satisfeita pela virtude do amor, que nos faz querer nada somente o que já temos. Se desejássemos subir mais então nossos desejos não estariam de acordo com o desejo Daquele que aqui nos colocou. Não há lugar para isto aqui. Considera a natureza do amor e verás que aqui, só amor é necessário. Nossa posição neste reino, seja mais alta ou mais baixa, agrada a nós, ao reino e também ao Rei. Aqui habitamos na Sua vontade, e a Sua vontade é a nossa paz.

Para mim ficou claro que o Paraíso está em todos os cantos do céu, mas que a graça do Bem Supremo não se espalha por ele de maneira uniforme.

Esclarecida a dúvida, perguntei sobre sua vida e como chegou a quebrar a promessa que fizera.

— A vida perfeita e grande virtude de Santa Clara — disse — inspira aquelas que vestem o hábito e o véu e desejam, até que a morte venha, viver e dormir com Aquele que aceita todos os votos de amor. Do mundo, por segui-la, ainda jovem, eu fugi, e no seu hábito me fechei. Mas os homens, mais inclinados ao mal que ao bem, raptaram-me do meu doce claustro. Só Deus sabe o que minha vida se tornou. E este outro esplendor que se mostra a ti à minha direita, também foi irmã e teve também o véu arrancado de sua cabeça. Forçada de volta ao mundo contra sua vontade, contra seus votos, jamais despiu o véu que cobria seu coração. Esta é a luz da grande Constança, que casou-se com o segundo vento de Suábia, e gerou sua terceira e última rajada de poder.

Depois que ela me disse essas coisas, todas as almas começaram a cantar Ave Maria e assim desapareceram como uma coisa que afunda em águas profundas. Sobre elas eu mantive meu olhar até que desaparecessem completamente. Depois, virei-me para Beatriz, e me ofusquei. Tão forte era a sua luz nos meus olhos, que não pude suportar o brilho, e assim não consegui, naquele momento, perguntar o que eu queria.

Postagens relacionadas

4/ 5
Oleh

Assine via e-mail

Por favor inscreva-se para receber as ultimas postagens no e-mail.