quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Auto ajustes


Acordei relativamente cedo. Entendi finalmente que para não atrasar 20 minutos no trabalho preciso acordar uma hora antes. A graça disso tudo é que nessa hora nova eu acordo bem mais alerta, reduzindo a letargia matinal consideravelmente.

Ao que parecia uma mudança absurdamente grande, principalmente por se tratar de horas de sono a menos, acabou sendo melhor do que o modelo anterior. Sem querer, acreditando que seria a pior das decisões, acabei achando um ponto confortável de despertar e vir ao trabalho.

O mais interessante é que isto pode acontecer em vários outros aspectos da vida. Novo horário de acordar, nova casa, cidade, namorado, fé e por ai vai. As vezes o que parece prenuncio de desastre iminente, como acordar uma hora mais cedo, pode se tornar algo melhor em vários sentidos.

Acho que isto tem a ver com a questão de separar. É, bem isso mesmo: separar as coisas e as pessoas, dissociando as impressões e pré conceitos.

Convencionalmente, dormir uma hora a mais traria um ritmo melhor para meu dia, mas se eu sair do âmbito da convenção, como fiz, e testar um novo modelo, pode ser que aquele novo, que envolve menos horas de sono, garanta uma performance muito melhor durante minhas atividades diurnas.

A gente se preocupa muito em ouvir o outro, os outros, o que a grande maioria das pessoas faz, quer ou sente que nem paramos para prestar atenção se realmente aquilo ali, eleito pela maioria, nos serve de forma positiva.

É esquisito pensar que ainda hoje, com tantas coisas acontecendo por ai que nos impelem a olhar um pouco mais para dentro, insistimos em ignorar o fato e seguimos guiados pelo fluxo da maioria, do par, do conjunto, da sociedade.

O que eu digo não é de forma alguma apologia a um estado de anarquia e sim um despertar para as nossas reais potencialidades, vontades, limites e tudo aquilo que o coletivo não pode definir pois não calça nossos sapatos e não caminham nossas milhas. A nossa historia é somente nossa. Somos singulares.

Também não digo que o coletivo não tenha força ou razão mas a questão aqui é pensarmos até que ponto o coletivo tem sentido nas minhas decisões mais profundas que envolvem tanto meu corpo quanto minha mente e porque não, minha alma.

Minha família, amigos, colegas e mesmo a população em geral podem me ajudar a decidir se determinado lugar é seguro ou perigoso; se aquela moda em evidencia na mídia é boa ou ruim; se determinado supermercado tem as melhores ofertas ou mesmo se determinada pessoa na qual convivemos diariamente é sincera ou não.

Mas estas mesmas pessoas não poderiam me ajudar, por exemplo a achar meu ponto de despertar pela manhã. Isto depende só de meus instintos, meu relógio biológico e outros fatores pessoais e intransferíveis que precisei vivenciar para entender e me ajustar.

Elas poderiam me dizer de suas experiencias em acordar cedo, me contar historias próprias de como se sentem com seus horários e a partir daí eu teria mais informações para complementar minha decisão mas não decidiram por mim. Ou não deveriam decidir por mim.

Se é consenso de massa que dormir uma hora a mais pela manhã traz um despertar mais ativo, porque não funcionaria comigo? Se para ser bonito preciso ser magro, porque não me jogar em dietas? Se para ter status eu preciso de um carro da moda, por que não me comprometer com prestações durante 60 meses? Se acordar todos os dias com alguém ao meu lado significa estabilidade e maturidade, porque não aguentar todos os abusos verbais e morais que isto implica?

São essas pequenas coisinhas, respostas simples e aparentemente ideais que muitas vezes nos deixam longe daquilo que deveria ser nosso ponto pacífico.

E quando começamos a olhar as coisas com nossa própria visão, e não a do outro, entendemos que a vida é bem diferente daquilo que projetamos.

Viver é coletivo mas pensar é sempre singular.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

A menina do futuro


Ela estava ali, entre seus vinis riscados e agora molhados pelo numero incalculável de lagrimas que havia deixado correr de seu rosto quando a outra apareceu.


- Hey você! Pare já com isso! - Disse a moça de cabelo azul turqueza, alta e esquisita com roupas estranhas e jeito apressado de olhar.


- Quem é você? - Perguntou a moça chorosa limpando as lagrimas dos olhos e do disco que estava abraçando enquanto olhava com total perplexidade a mulher a sua frente que, coincidentemente, se parecia muito com ela, tirando a coloração berrante dos cabelos.- Como você veio para aqui dentro do meu quarto trancado?


- Não interessa garota, o foco agora é você parar de chorar por esse babaca que não  qte dá a mínima! Ele não é o homem da sua vida e por mais que acredite nisso estou aqui para te provar que não é verdade!


- Olha aqui senhora…


- Senhora não pois sou apenas 20 anos mais velha que você.


- Quem é você afinal e oque faz no meu quarto e o mais importante: que te deu o direito de dar pitacos na minha vida amorosa?


- Cruzes Ana Beatriz, você já foi bem mais espertinha, ou você será bem mais espertinha... não sei... - Refletiu a moça de cabelos coloridos com olhar perdido na parede cheia de imagens do Airton Senna - Enfim, eu sou você sua burra! A 20 anos no futuro te dizendo a real pois não é possível aguentar você chorando por causa do Beto! Chora pelo FHC ser presidente, pela confusão das UFIRS - que aliás em julho vira Real e no futuro teremos um poder aquisitivo absurdamente maior e você vai poder comprar todas aquelas maquiagens importadas que tanto vê nas revistas -  mas enfim, sai dessa. Vim aqui te dizer: sai dessa!


A menina olhou com a cara mais desconfiada possível para a moça que estava a sua frente cheia de razões e uma maquiagem fabulosa e pensou que talvez, em 20 anos, as maquiagens seriam fantásticas mesmo ou estava tendo um tipo de surto de cunho futurístico por causa da solidão da solteirice.


- Eu? Daqui 20 anos? E como você veio parar aqui? Daqui a 20 anos vamos ter viagens no tempo? - Gracejou a adolescente em tom de rebeldia


- Olha, exatamente como eu vim parar aqui não sei explicar. Acho que foi o Facebook e as correntes de 10 coisas que você diria a você mesma a 20 anos atrás... Mas o que importa é que estou aqui e tenho que te dizer: ele não é o amor da sua vida e você não vai ficar com ele para sempre!


- Como você sabe? Eu sinto que nascemos um para o outro e tenho certeza que este disco que ele me deu conta toda nossa historia de amor!


- Olha aqui na minha mão. Tá vendo alguma aliança de casamento? E você já ouviu direitinho esse disco? Não reparou que as letras não tem nada a ver com o bilhete que ele te deu? A claro...ainda não começou a estudar inglês.


- Do que você está falando sua louca? Sai do meu quarto e pare de falar do Beto dessa forma. Ele é o amor da minha vida sim. Sai daqui produto da minha imagição deprimida pela saudade!


- Vem aqui - A menina desconfiada não se move - Vem logo Ana Beatriz, não sei quanto tempo eu tenho aqui no passado, para de ser preguiçosa e vem aqui e me belisca.


- Ah! Isso eu faço com prazer. Pode socar também?


- Por sua conta e risco! - falou a mulher muito calmamente.


A jovem sem muita demora se aproximou da mulher. Era incrível que, apesar das roupas de tons sem graça que vestia, o seu perfume, maquiagem e cabelo faziam com que ela se parecessem com uma das modelos de suas revistas preferidas. Sem muitas duvidas pegou o braço da mulher e deu um beliscão daqueles para doer.


- Ai! Porque doeu em mim? - Instantaneamente puxou seu próprio braço com cara de dor.


- Dã...porque beliscou a você mesma! É disso que to falando. Eu sou voce no futuro criatura! Deu para acreditar?


-Ainda não, isso pode ser um fruto muito vivido da minha imaginação… semana passada eu fumei maconha e talvez…


- Para de falar besteira garota! Supondo que eu, quer dizer, que nós estejamos surtando. Ainda assim eu tenho razão e por isso tem que me escutar. O Beto não será o homem da sua vida, você nem vai perder a virgindade com ele - Disse a mulher de cabelos coloridos, cheia de razão - e depois ainda vai namorar o Paulinho que é um tocador de violão que vai chegar na escola no mes que vem. Ainda tem o Elionor que vai se apaixonar perdidamente e querer fugir de casa com ele mas na hora da fuga vai lembrar que não tem para onde ir e desistir…


- O Elionor? Tá loca!?


- Não querida, quando você beija-lo vai entender o porque do largar tudo e fugir...garota... que beijo... mas enfim, e ainda vai namorar uns tantos e ficar com outros tantos até perceber que o homem perfeito não existe.


A menina loira olha para a mulher blue sem saber o que dizer.


- Estou te poupando de tantos momentos desgraçados garota. Presta atenção!


- Sério? A garota olhou para a mulher com mais tristeza que antes e neste momento o  vinil se quebra de tanto que ela apertou contra o peito - Sério mesmo que eu vou namorar tanta gente assim, inclusive o idiota do Elionor, e não vou me casar com o Beto e ter os nossos filhos…


- Junior e Camila? É filhota, não vai. Aliás daqui 20 anos você vai querer distancia de qualquer manifestação de crianças. De baby só bife…


- Bife? Não é possível que você não tenha conseguido casar e ter filhos nesses 20 anos, quer dizer, eu... nós.


- Amiguinha, olha só: 2 mestrados e 1 doutorado, média de 20 salários mínimos por més e um trabalho onde posso exercer minha liberdade de expressão. Esse foi o resultado das noites em claro por caras de merda.


- Vou ser rica? E terminarei a faculdade? Mas solteira para sempre com cara de boneca de cera - Neste momento ela desaba a chorar convulsivamente.


- Hey! Alou! garota você percebeu que conquistou uma vida maravilhosa que hoje, aos 16 sequer imagina ser possível porque fica perdendo tempo e desperdiçando energia com esse Beto que semana que vem vai te trocar pela Marília!


- Marilia! Bem que eu desconfiei!


- Claro sua louca! E certamente ele deve estar lá com ela neste momento enquanto você morre de chorar. Se tivesse celular poderia ligar para ele agora que aposto que ela atenderia… aquela sonsa.


- Celular?


- Ana Beatriz! de tudo que acabei de falar você registrou apenas a palavra “celular”? - berra indignada a moça -  há coisas que você só vai entender daqui 20 anos, não vou te explicar. Sabe os gatos que mamãe não deixa você ter?


- Sei.


- Terá 2 no seu apartamento!


- Um apartamento com gatos para mim? Só meus?


- Totalmente quitado e bem decorado.- Replica orgulhosamente a moça do futuro.


- Moro sozinha com gatos?


- É.


- Ameudeus virei solteirona no futuro - A menina começa a soluçar novamente certa de que seu futuro seria uma bosta -  Que adianta ter dinheiro, emprego, apartamento e gatos se sou... solteira e não tenho filhos?! Vou ficar para titia!


- Larga de ser besta garota. Olha bem para mim! Não existem titias no futuro! Você vai poder escolher seus pares e vai mandar longe os Betos que aparecerem.


- O Beto volta? Como ele fica daqui 20 anos?


- Gordo, feio e cobrador de ônibus - responde com desinteresse
.
- Sério?


- Claro que não, infelizmente Ele é um executivo sacana e mora em uma cidade distante e tem 5 filhos de...Marília.


- Ele casa com a Marilia?! Esse bosta vai casar com aquela tábua da Marília. E vai ficar rico e com 5 filhos?


- E a Marília é médica


- Mé-di-ca? Filhadaputa dessa Marília!


- Mas não se preocupa que a licença dela foi caçada por mau uso da profissão e o marido dela tem 3 amantes. Uma em cada estado.


- Bem feito! Agora fico mais tranquila... como você sabe?


- Facebook, orkut e linkedin. Redes sociais virtuais... coisas de internet que são muito mais informativos do que cartas ou amigas fofoqueiras.


- Internet... então ela te diz tudo sobre ele? Sem você perguntar nada?


- Claro que não, eu pesquiso a vida dele e…


- Ah! Então você pesquisa a vida dele através dessa tal de internet ao invez de pessoas foqueiras!? Então você ainda se importa com a vida dele mesmo depois de 20 anos levando um fora?! Aliás, eu levo um fora?


- Sim, leva um fora mas espero que depois dessa conversa você tome vergonha na cara e pare de sofrer por ele e por todos os futuros caras.


- Você namora? Eu namoro no futuro de 20 anos?


- Olha, você/eu estamos tentando namorar mas ficamos exigentes demais. É o preço que se paga pela maturidade... Mas nós estamos com um carinha sim e estamos curtindo.


- Vamos casar com ele? Ele parece alguém que eu, quer dizer, que nós conhecemos?


- Lembra alguém sim, já que você comentou… - responde vagamente a mulher.


- Quem? Quero ter uma idéia do meu futuro namorado para saber se pode ser pai dos meus filhos!


- No futuro nós não somos desesperadas por matrimonio Ana Beatriz. Acalma esses hormônios pois no máximo se mora junto.


- Uau! Ultra modernas nós somos no futuro! Mas conta, como ele chama?


- Luiz Alberto.


- É um Beto tb?


- Não havia parado para pensar mas… É um Beto também.


A menina olha com muita suspeita para sua visão futurística e pergunta com bastante calma e seriedade:


- E ele parece com quem?


- O Alberto? Ele se parece… - silencio constrangedor no ar - Acho que ele se parece com o Beto.

No instante que a menina indignada arregala os olhos e abre a boca para começar a falar...Puff. A mulher Ana Beatriz desaparece.