segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Tempestade


Havia uma certa penumbra no céu. O fato da tempestade estar próxima, varria a luz daquela casa e trazia o frio da noite para dentro dos cômodos. O vento assoviava algumas canções sombrias e nesta melodia ela dançava entre os papéis que voavam da mesa, quando a janela se abriu pela força da natureza.

Ela não deveria estar ali, precisava voltar para sua casa, sua gente. E ao mesmo tempo que o tempo corria longe demais fazendo com que a urgência do retorno se fizesse cada vez mais clara, havia um temporal se armando lá fora que lhe trazia lembranças de angustias muito antigas.

Fechou a janela e olhou o mar. A natureza estava realmente avassaladora naquela tarde. Tentou ser racional e para superar o medo lembrou que o carro estava com o tanque cheio na garagem, que ela sairia dali a favor do vento e em menos de 30 minutos estaria exatamente onde precisava estar.

Organizou seus papéis, colocou dentro de uma pasta firme e depois dentro da bolsa. Correu ao banheiro e arrumou o cabelo num grande rabo de cavalo. Olhou firme para aquele reflexo e sentiu novamente o medo.

Não conseguiria atravesar a cidade com a tempestade la fora. Os raios, o vento. Embora ainda distantes e mesmo sabendo que para onde tinha que ir não haveria tempos ruins, sentiu medo. E se o pneu estourar, perder a direção ou simplesmente a gasolina acabar.

Mas como a gasolina acabaria se o taque está cheio e conhece o caminho como a palma de sua mão. Era simples. Era entrar no carro e partir. Será que isso é tão impossível assim?

Ela viajara a vida toda grandes percursos, enfrentara grandes alterações climáticas e sinceramente não podia ter medo desta precipitação de verão.

Sentiu-se fraca, incapaz. Lembrou do acidente que havia sofrido a meses atrás naquele mesmo local, nas condições climáticas muito semelhantes e chorou.

Ela havia errado o caminho naquele dia e se culpava tiranamente pelos problemas que causou a si própria e aqueles que a aguardavam naquele dia.

Olhou para dentro do banheiro e quase decidiu que deveria ficar ali dentro até tudo aquilo passar. Ouviu mais uma vez o vento abrindo a janela com mais violência.

Correu para a sala pegar sua bolsa e viu as ondas agigantadas pelo vento. Teve medo de ficar. Mas tinha mais medo de ir.

respirou fundo e correu novamente mas para a cozinha, onde estavam as chaves do carro. Ao pegar as chaves percebeu cair do meio da pasta um pequeno papel amassado e velho.

Institintivamente, com a curiosidade que lhe era peculiar mesmo em meio as situações mais difíceis, abriu o papel e leu.

Não tenha medo. Se errou conserte pois errar é humano. Você é mais você.

Um profundo suspiro foi dado e uma gloriosa sensação de empoderamento de si, se apropriou dela.

Lembrou daquele papel, de quem era e de que poderia tentar sair na tempestade. Percebeu que se não chegasse aos seus em tempo, isto não faria o caminho menos importante. Percebeu que o medo não valia a pena.

Trancou a porta para trás, entrou no carro e dirigiu para casa. Na verdade lá era o único lugar que ela queria estar e embora o rumo parecia errado e incerto para aqueles que a esperavam a 30 minutos dali, ir para casa era tudo que ela queria. E podia.

Depois daria telefonemas, explicaria os motivos e pediria desculpas se julgasse necessárias.

Mas ela se foi. A tempestade passou.

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Oleh

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