A Geometria dos Ciclos: Entre Pedras e Epifanias
Às sete badaladas da manhã, enquanto o café esfria e o silêncio da casa permite que os espectros do pensamento decolem, percebo o quanto esta semana foi um mergulho no abismo do caos.
Recentemente, a impermanência decidiu tomar forma e ditar suas próprias regras implacáveis, sem distinção: do ambiente corporativo aos planos do feriado, atravessando cada nervura da minha vida pessoal.
Fui confrontada com a visibilidade da falta, aquela impossibilidade nua, crua e fria de mantermos o controle sobre o que nos cerca. Foi incrível, mas foi, acima de tudo, um esgotamento da alma.
Estamos na semana que antecede meu aniversário, no dia 10. E, nesse limiar, a imagem de uma montanha se impôs diante de mim como um monumento de pedra e sombra. Para mim, cada aniversário é a conquista de um monte. Às vezes estamos em plena ascensão, outras vezes, na descida.
Na subida, as dificuldades são mestras cruéis; elas nos trazem sabedoria, moldam nossas histórias nas cicatrizes que deixam e nos forçam a aprender algo novo a cada pedra cortante no caminho.
Na descida, o movimento é outro, quase espectral. Descemos cheios de novas possibilidades, prontos para “distribuir” e compartilhar as epifanias colhidas no cume solitário. É o momento do cuidado, da entrega e do retorno inevitável ao plano.
Sinto que estou exatamente nesses últimos metros, onde o solo firme ainda é uma miragem. A descida carrega uma dualidade pesada: a expectativa da chegada acompanhada pelo peso acumulado de toda a jornada.
O corpo já está mais fraco, a alma sente saudades de lugares seguros e a mente anseia desesperadamente por um banho quente e pelo conforto de uma comida caseira, como quem busca um rito de purificação.
Nesta fase, a gente tropeça na própria exaustão. É preciso lidar com um cérebro cansado, quase colapsado sob o peso de tantas agruras, e convencê-lo, quase num sussurro, de que o fim está próximo. É o momento em que a jornada deixa de ser sobre performance e passa a ser sobre resistência e a humildade de aceitar o auxílio.
Meu corpo e minha mente agora são aqueles que não estão bem e imploram por ajuda para terminar a travessia.
Apesar do cansaço que me habita, a certeza da chegada é o que sustenta o passo vacilante. O final de semana se anuncia como o acampamento necessário, o descanso obrigatório para cumprir o que resta da jornada e encerrar o plano.
Na segunda-feira, darei os passos derradeiros. E na terça-feira, celebrarei a vitória da chegada ao meu novo ciclo do sol em volta dos meus dias. Finalmente, estarei em solo plano novamente, pronta para o que as sombras e as luzes do novo ano reservam.
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