O gótico solar agora habita em mim
Habitei, por um longo ciclo, um casulo feito de silêncios necessários. Este lugar onde estive não foi apenas um endereço; foi o meu laboratório alquímico, o solo onde enterrei versões de mim que já não respiravam para ver nascer a bruxa que hoje caminha com pés firmes e coração desarmado.
Dizem que o gótico é a celebração do escuro, mas hoje entendo que só quem mergulhou nas sombras mais densas da própria linhagem, honrando as perdas, os lutos e as distâncias, é capaz de reconhecer a verdadeira luz. Não aquela luz que cega, mas a luz que aquece. Uma calidez que não apaga o meu mistério, mas o ilumina.
Neste solo, venci batalhas que ninguém viu. Curei o medo da rua, recuperei a soberania do meu corpo que corre e que vibra, e transformei o peso do passado em fluência de alma. Estudei o humano enquanto redescobria o meu próprio instinto selvagem. Parei de beber a angústia em taças cheias para começar a beber a vida em goles lentos de presença.
Subi a montanha que o destino me impôs. E lá do topo, exausta mas inteira, o horizonte se abriu. Não avistei outro pico escarpado para escalar. O que vi foi uma planície. Ampla. Verde. Exuberante.
Percebi, enfim, que o tempo do esforço bruto deu lugar ao tempo da colheita. Não preciso mais provar que sou forte; a força agora é o meu estado natural. Sou vida que flui, energia que explode, ar que respiro.
O meu "verdadeiro lar" não tem ainda uma coordenada no mapa, mas já tem cheiro: tem o perfume inebriante das flores do caminho e o som do "silêncio barulhento" das folhas ao vento. Se a geografia ainda é um mistério, o pertencimento já é um fato. Eu pertenço a mim mesma.
Recolho meus espólios
(meus livros, meus ritos, minhas corridas, minha sexualidade protagonista) e me preparo para descer. A planície me espera com sua abundância silenciosa. E eu, finalmente, cheguei onde precisava chegar.

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