haviam cacos na janela. do alto do morro, onde finas e frias gotas se fundiam com o brilho imenso da luz incidindo sob os fragmentos de vidro. dispostos, separados, alheios as tanta e diarias quebras e rupturas. ainda assim. haviam cacos na janelas.
eles estavam la por mera expressao de desleixo, esquecimento do dia comum, vaidades projetadas para um olhar distante, nao para aquela janela. e o projeto primeiro, da linda varanda se desfez tao rapido pois haviam cacos gritando tao alto que a natureza dos objetos imoveis naquele salao se fazia decrepta, inutil. infieis e mesquinhas coisas que compactuaram para que, ainda la, esquecidos, continuassem. haviam cacos nas janelas.
a moça chorou ao passar suas delicadas maos por sobre a rica moldura que sustentava o rico vidro que hoje jaz num mar de pequeninos pedaços. a moça sente o corte ainda fresco e infantil daquele que a muito havia sido belo e elegante. que se faz com eles? nao sao meus. sao teus. teus cacos. minhas janelas. inutilmente vivendo ali, fractos, indecorosos. brilhantes e antiteticamente perfeitos. cortantes. ferozmente apaticos e inofensivos. muito simples: nao chegue perto. nunca. nem por curiosidade, daqueles cacos, daquelas janelas.
O pós do apocalipse
É como se fosse um dia depois, nos escombros. A gente procurando reconstruir aquilo que ainda está de pé e lamentando as ruidas daqueles pilares que não irão mais se erguer. É um misto de morte com um incessante folego de vida, de querer, de ter por conta de...sabe lá oque, emergir da poeira e rastros desse pequeno apocalipse doméstico. Ainda há muito o que vasculhar, recuperar e se despedir. É um dia de trabalho intenso nesses escombros que se apresentam no cenário. E o mais sensato, ainda que automático, pois está desprovido de emoções reais, é levantar e recomeçar no novo mundo. Seja ele como for.
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